Custos, prazo e BIM em obras de incorporação — pra clientes como FG (Scenarium, Blue Coast), Mussi (Oxford 600) e Gessele (Elizabeth II). Mais de 330 empreendimentos no Brasil.
“
O que a gente entrega não é economia. É previsibilidade — a obra fecha na margem que o incorporador imaginou no lançamento.
— previsibilidade, não sorte. E é no canteiro e nos suprimentos que essa margem se ganha ou vaza.
O roteiro dos 2 dias
Do plano ao canteiro ao caminhão
Nivelamento — recap rápido de planejamento
Gestão do planejamento — Last Planner, look-ahead e PPC
Recursos — histograma e nivelamento de efetivo
O canteiro como sistema — e quanto ele custa
Layout, transporte e vivência — NR-18, grua, elevador
Canteiro enxuto — Lean, 5S e as perdas
Suprimentos — comprar e abastecer (sábado)
Exercícios — layout + cronograma de compras
§
Recap
Planejamento de obras: o que vocês já viram
15 minutos de ponte pra falarmos a mesma língua — sem aprofundar.
Recap rapido
A tríade que vocês já conhecem
EAP — o QUE fazer (quebra a obra em pacotes).
Diagrama de rede — em QUE ORDEM (precedências).
Cronograma — QUANDO (datas e prazos).
Caminho crítico — a sequência que não pode atrasar.
Duração = Quantidade ÷ (Produtividade × nº de equipes).
SínteseIsso responde QUANDO e EM QUE ORDEM.
“
O cronograma diz o que fazer e quando. O canteiro e os suprimentos decidem se vai acontecer.
— a ponte de hoje
Como a gente vai operar hoje
Do plano à obra, em 3 camadas
Gestão do planejamento — fazer o plano sobreviver à obra (Last Planner) e dimensionar gente (histograma).
O canteiro — o lugar físico onde se produz, e quanto ele custa.
Suprimentos — o abastecimento que faz o plano virar obra.
Começamos pela gestãoO sistema que conecta o cronograma macro ao que a equipe faz amanhã — e que puxa o canteiro e as compras.
§
Gestão do planejamento
Last Planner: do cronograma ao canteiro
O sistema que faz o plano sobreviver à obra — e que puxa os suprimentos.
O problema
O cronograma macro não sobrevive ao canteiro
O cronograma fala em meses e semanas; a obra funciona em dias e turnos.
Falta a camada que traduz o macro pro o que eu faço amanhã.
Glenn Ballard (anos 90): o problema não era o plano — era a gestão do plano.
O número que dóiSem gestão sistemática, o PPC médio fica em ~50% — metade do que se planeja pra semana não acontece.
As 3 camadas do Last Planner
Longo, médio e curto prazo
Camada
Horizonte
Pergunta-chave
Longo — master plan / cronograma
a obra toda
o que PRECISA ser feito
Médio — look-ahead
6 a 8 semanas
o que PODE ser feito (está livre?)
Curto — programação semanal
1 a 2 semanas
o que SERÁ feito (compromisso)
O cronograma da rede/CPM é a camada longa. O Last Planner acrescenta o médio e o curto — e é aí que a obra acontece.
Médio prazo — look-ahead
Olhar 6 a 8 semanas à frente
Toda semana: as atividades de daqui a 6–8 semanas podem começar na data? O que pode travar?
Essa "coisa que trava" é uma restrição — e tem que ser resolvida ANTES de a equipe chegar.
É a camada mais importante do sistema: é onde a falta é antecipada.
Análise de restrições
As 7 coisas que travam um serviço
Restrição
Exemplo na obra
Material
esquadria não chegou (lead time) — causa nº 1
Projeto
detalhe não compatibilizado
Mão de obra
equipe não contratada / realocada
Equipamento
grua ou balancim indisponível
Espaço / acesso
pavimento anterior não liberou
Técnico
cura do concreto, reboco não secou
Aprovação
laudo ou liberação do cliente
Resolver a tempo
A linha do tempo da restrição
6 semanas antes — identifica TODAS as restrições do serviço.
4 semanas antes — começa a resolver: cobrar, comprar, contratar.
2 semanas antes — tudo precisa estar livre.
Na semana — só entra na programação o que NÃO tem restrição pendente.
Curto prazo — programação semanal
Só se promete o que se pode cumprir
Da lista de atividades livres (sem restrição), monta-se a semana.
Atividade com restrição pendente NÃO entra na programação — sem fingir.
Cada tarefa tem responsável e meta clara; no fim da semana, mede-se.
A virada de chaveParar de "empurrar" o que não dá pra fazer e só comprometer o que está pronto pra acontecer.
PPC — o termômetro semanal
Percentual de Programação Concluída
PPC
tarefas concluídas ÷ programadas
80%+
meta de uma obra bem gerida
~50%
média sem gestão (o ponto de partida)
O que importa não é o númeroÉ a análise de por que não cumpriu. Toda semana o sistema aprende — e a causa nº 1 quase sempre é material.
A reunião semanal
55 minutos que seguram a obra
Mede o PPC, analisa as causas de não-cumprimento, atualiza o look-ahead.
Monta a próxima semana (só o que está livre) e cada um se compromete.
Quem participa: engenheiro, mestres, encarregados — e o almoxarife (restrições de material!).
Resultado realObra de 15 pavimentos: PPC subiu de 48% para 78% em 12 semanas — sem mudar o cronograma, só a gestão.
Antes de seguir — chute
Qual restrição mais atrasa a obra?
§
Gestão do planejamento · recursos
Histograma: quantas pessoas, e quando
O Last Planner diz o QUE e o QUANDO. O histograma responde QUANTOS — e ensina a nivelar o efetivo.
O que é
A curva de efetivo da obra
Gráfico de barras: no eixo X o tempo (semanas ou meses), no eixo Y o número de operários.
Sai direto do cronograma: cada atividade tem uma equipe; somando as equipes ativas em cada período, nasce a curva.
Formato típico: sobe na estrutura, faz platô/pico no acabamento e cai na entrega.
Lembrete da fórmulaDuração = Quantidade ÷ (Produtividade × nº de equipes). É a equipe de cada serviço que alimenta o histograma.
O que a curva denuncia
3 problemas que o histograma mostra
Problema
O que acontece na obra
Pico alto demais
vivência lotada, logística caótica, encarregado sem supervisionar — e gente demais pra contratar e dispensar rápido
Vale profundo
equipe ociosa entre serviços: você paga sem produzir
Subida brusca
sair de 10 pra 35 operários numa semana: não dá pra contratar e treinar tão rápido
A metaUma curva suave: sem picos que estouram o canteiro, sem vales que pagam ociosidade.
A folga como ferramenta
Nivelar é um jogo de Tetris
Atividade não-crítica tem folga — pode começar mais cedo ou mais tarde sem atrasar a obra.
Empurrando a atividade com folga pra dentro de um vale, você tira gente do pico e preenche o buraco.
É o que o MS Project faz no botão "Resource Leveling" — mas saber na mão é saber quando o software erra.
O pulo do gatoMesmo prazo, mesmo escopo — só remanejando dentro das folgas, o pico cai e o canteiro respira.
Experimente — arraste o controle
Nivele o efetivo usando a folga
semana de pico do efetivo efetivo nas demais semanas
“
O pico do histograma é quanta gente o canteiro precisa caber ao mesmo tempo.
— por isso a vivência se dimensiona pelo pico de efetivo. Agora, ao canteiro.
§
O canteiro
Planejamento do Canteiro de Obras
A obra como sistema produtivo: layout, logística e Lean.
“
O canteiro é a fábrica que você monta pra fabricar um produto que nunca mais vai fabricar igual, num lugar onde nunca mais vai produzir, com uma equipe que se desfaz no fim.
— a maldição e a beleza da construção
Definição operacional
O canteiro é um sistema de produção
Transforma insumos (material, mão de obra, energia) em obra.
Subsistema de produção — a frente de serviço.
Apoio à produção — centrais, transporte, estoque.
Apoio à mão de obra — a vivência (NR-18).
Regra de bolsoO canteiro custa tipicamente 3% a 6% do custo direto da obra.
O ganho oculto
Pra onde vai o tempo do operário
40%
agrega valor (mão na massa)
60%
transporte, espera, retrabalho
LeanReduzir distância de transporte é o jeito mais barato de “contratar gente sem contratar gente”.
Perdas fisicas (benchmark Finep/EPUSP)
O material que vira entulho
9%
concreto
11%
aço
27%
blocos (até)
40%
areia
Dói no bolsoToda caçamba de entulho foi paga 2x: quando comprou o material e quando paga pra jogar fora.
6 vetores de impacto
Por que o canteiro importa
Produtividade — menos transporte e espera, mais valor.
Segurança — layout ruim é acidente esperando acontecer.
Custo — perdas, dobra de manuseio, equipamento ocioso.
Prazo — fluxo travado atrasa serviço.
Imagem — cliente, vizinho e fiscalização julgam o que veem.
SínteseCanteiro não é onde a obra acontece — é o que decide se ela acontece.
§
O método
Como se dimensiona um canteiro
Não se chuta: tudo escala a partir do efetivo de pico. Norma (NR-18 / NR-24) + a prática Cartesian.
A ordem certa
Dimensionar em 4 camadas
Efetivo de pico — quantas pessoas no máximo (vem do histograma).
Vivência — sanitário, vestiário, refeitório, pelo nº de gente (NR-18 / NR-24).
Produção e apoio — centrais, almoxarifado, pátios (por área e produção).
Utilidades — água, energia e esgoto, pela demanda da obra.
A regra de ouroDimensione sempre pelo pico de efetivo, nunca pela média — senão falta banheiro e bebedouro justo na hora de mais gente na obra.
Camada 1 — o motor de tudo
A conta do efetivo
N =Área construída × Pm (h/m²)Prazo (meses) × 180 h/mês
Pm — índice de mão de obra, ~40 a 50 h/m²180 — horas por mês de cada trabalhador
Villa Vauban (real)22.311 m² × 43 h/m² ÷ (48 meses × 180) = 112 trabalhadores. Obra maior ou mais rápida = mais gente = canteiro maior. Tudo desce daqui.
Camada 3 — áreas de produção e apoio
Quantos m² para cada central
Instalação
Critério
Referência
Central de armação (aço)
acomodar barra de 12 m — a que mais pede espaço
~60 m² / 30 op. (SINAPI)
Central de fôrma e argamassa
bancada + estoque de uso
15 m² cada (Cartesian)
Almoxarifado geral
volume dobra ao longo da obra
~150 m² (Cartesian)
Armazenamento por pavimento
~3 m² por unidade habitacional, rateado
Cartesian
Baias de agregado
3,0 × 3,0 m; pilha até 1,5 m
prática de obra
Decisão primeiraPosicione a central de armação e o elevador de carga antes de tudo — são eles que condicionam todas as outras áreas.
Quanto canteiro no total
A área do canteiro é uma soma, não um %
Não existe "canteiro = X% da obra" com respaldo — é chute de obra.
O jeito certo é aditivo: soma a área de cada instalação que você dimensionou (vivência + produção + apoio + circulação).
Exemplo de referência: 100 operários → ~790 m² de canteiro, somando 9 instalações.
O que aperta o resto é a taxa de ocupação do terreno: projeção grande sobra pouco → canteiro restrito.
Na práticaProjeção da obra + canteiro mínimo passando de ~90% do terreno = canteiro restrito: aí o transporte vira vertical e a logística aperta.
Camada 4 — água, energia, esgoto
Dimensionar as utilidades
Utilidade
Critério de demanda
Água
~50 L/operário/dia (NBR 13969) — 45 sem cozinha, 65 com cozinha na obra
Reservatório
1 a 2 dias de consumo (humano + produção)
Esgoto
~50 L/pessoa/dia; fossa + filtro/sumidouro sem rede
Energia
soma das cargas (grua 26-33 kVA, elevador, betoneira, serra) × fator de demanda
Pontos de água
1 a cada 20 operários (Cartesian)
Erro comumSuperdimensionar a energia: contratar demanda muito acima da real custa caro o mês inteiro. Some as cargas reais e aplique o fator de demanda.
Segurança — o que NÃO escala com gente
Proteção coletiva é geometria
Proteção (EPC)
Como se dimensiona
Tela fachadeira
perímetro × pé-direito de cada pavimento (≈ área de fachada)
Guarda-corpo de desforma / linha de vida
perímetro da torre × nº de pavimentos
Bandeja de proteção
perímetro de projeção × nº de reinstalações
Tapume
perímetro do terreno × 2,40 m de altura
O contrasteVivência e ferramentas escalam com o efetivo; a proteção coletiva escala com a geometria do prédio (perímetro, fachada, nº de lajes). Dois motores diferentes no mesmo canteiro.
Pra não ensinar número velho
Norma × prática: 4 alertas
A NR-18 de 2020 enxugou as metragens: refeitório 1,0 m²/trab e pé-direito hoje só estão na NBR 12284 (cancelada) — referência de projeto, não lei.
Ambulatório (acima de 50 trab.) é da NBR 12284, não mais da NR-18.
Vestiário virou fórmula (NR-24): 1,5 − (nº/1000) m²/trab — não é mais 1,5 fixo.
Não invente "% do terreno pro canteiro" nem "1 grua por X m²" — sem respaldo; dimensione somando instalações e estudando ciclos.
A sínteseA norma dá o piso (segurança); a prática Cartesian dá os índices de projeto. Os dois juntos viram um canteiro dimensionado — e, na sequência, orçado.
A ficha que fecha as 4 camadas
Ficha de dimensionamento ao vivo
112
trabalhadores de pico — tudo escala daqui
Camada 2 · Vivência (NR-18 / NR-24)
Camada 3 · Produção e apoio
Camada 4 · Utilidades & área total
R$
Do projeto ao orçamento
Quanto custa um canteiro?
A regra de bolso da literatura — e o que a nossa base de obras reais mostra.
Regra de bolso × dado real
O que o livro diz × o que a obra mostra
A literatura
Instalação do canteiro: 3% a 6% do custo direto da obra.
É média de manual — serve pra um chute inicial, não pra fechar orçamento.
Nossa base — 13 obras Cartesian
Linha de canteiro (provisórias) sobre o custo total:
p25 0,2% · mediana 1,55% · p75 3,3% · p90 6,7%
Varia muito: porte, prazo e padrão mudam tudo.
Cuidado com o denominador"3-6%" é sobre o custo direto; a nossa linha é sobre o custo total e cobre só o canteiro físico. O custo indireto cheio — administração local, equipe, operação — é bem maior. Vamos abrir.
água, energia, esgoto, bombeamento, tratamento de efluente
Operação da obra
água/luz/internet, limpeza, entulho, manutenção, EPCs, vigilância e portaria
Equipe indireta
engenheiro, mestre, almoxarife, estagiário, técnico de segurança
O que pega muita genteO canteiro físico (container, tapume) é só uma fatia. O grosso é manter a obra rodando: operação e equipe indireta correm o prazo inteiro.
Caso real — obra residencial, 2 torres
Onde o dinheiro realmente vai
Item (custo indireto)
R$/m²
% da obra
Serviços iniciais (mobilização, preliminares)
67,03
2,55%
Instalação e manutenção do canteiro
7,33
0,28%
Administração local (equipe indireta)
48,03
1,83%
Obra completa (referência)
2.627
100%
A virada de chaveO canteiro físico (central, almoxarifado, container) é só 0,28%. A administração local — a equipe que toca a obra todo mês — é mais de 6× maior. No fundo, o custo do canteiro é o custo de manter gente coordenando do início ao fim.
Abrindo o canteiro físico — obra real, 112 funcionários
O gancho com o histogramaFerramentas e EPI são por funcionário — sobem com o pico de efetivo. Quanto maior a curva de gente, maior o canteiro físico e a vivência. Por isso dimensionar o efetivo vem antes de orçar o canteiro.
O que faz o número subir ou descer
O que dirige o custo do canteiro
Prazo da obra — operação e equipe indireta são custo por mês: obra mais longa, canteiro mais caro.
Porte e nº de torres — um canteiro concentrado ou vários satélites; ganho de escala na obra grande.
Padrão de acabamento — do container básico ao canteiro com sala de cliente e refeitório padrão.
Sistemas especiais — pressurização, ETE e bombeamento puxam mais infraestrutura provisória.
Restrição do terreno — canteiro urbano apertado força logística vertical e mais custo.
Na práticaPor isso a gente não usa "3-6% e pronto": parte das composições reais e ajusta pelos drivers da obra.
§
Linha do tempo
Fases do canteiro
O canteiro é um filme, não uma foto: nasce, cresce, atinge o pico e morre.
Visão geral
O ciclo de vida do canteiro
Implantação — montar a fábrica no terreno.
Crescimento — a estrutura sobe, ciclo por ciclo.
Pico — efetivo máximo, acabamento.
Desmobilização — desmontar e entregar.
Curva de efetivoFormato de sino: começa baixa, sobe na estrutura, platô no acabamento, cai na entrega.
Fase 1
Implantação: montar a fábrica
Limpeza, terraplenagem, tapume do perímetro.
Ligações provisórias: energia, água, esgoto.
Vivência, almoxarifado, guarita e locação da obra.
Montagem da grua (ela ajuda a montar o resto).
Erro clássicoMontar vivência ou estoque onde depois passa o caminhão-bomba ou a grua não alcança.
Fase 2
Crescimento: a estrutura sobe
Fôrma, armação e concretagem ciclo por ciclo.
Transporte vertical vira o coração do canteiro.
Centrais de fôrma e armação a plena carga.
O canteiro começa a perder espaço de chão.
MigraçãoO estoque do térreo recolhe; pavimentos já concretados viram área de apoio.
“
O pico de gente é no acabamento, não na estrutura.
Elevador vira gargalo — fila de operário é Hh parado.
Vivência no limite: refeitório e sanitário no pico.
A grua pode já ter sido desmontada.
Logística finaMaterial caro e frágil (porcelanato, louças) entra just-in-time por pavimento.
Cola rapida
A regra de bolso das fases
Vivência — dimensione pelo PICO (acabamento).
Acessos e vias — dimensione pela IMPLANTAÇÃO (caminhão pesado).
Transporte vertical — dimensione pela ESTRUTURA (ciclo de concreto).
ResumoTrês fases, três gargalos diferentes — cada um manda em um recurso.
Tenho espaço ou não?
Canteiro restrito x amplo
Restrito / Urbano (vertical)
Gargalo: espaço de chão
Estoque mínimo, JIT forçado
Transporte vertical é tudo
Vivência sobe no próprio prédio
Logística externa crítica (rua, vizinho)
Amplo / Horizontal
Gargalo: distância
Estoque amplo, risco de excesso
Transporte horizontal pesado
Vivência espalhada em pátio
Múltiplas frentes simultâneas
§
Engenharia de fluxo
Layout do canteiro
Não é decoração de planta: é minimizar movimentação e separar fluxos.
Como se projeta um layout
Método SLP (Systematic Layout Planning)
Localização — onde cada setor entra no terreno (análise preliminar).
Arranjo geral — zonear por proximidade (a matriz A-E-I-O-U-X) e por fluxos.
Arranjo detalhado — dimensionar cada instalação e posicioná-la.
Implantação — cronograma de montagem e desmontagem ao longo da obra.
O que governaMinimizar fluxos × distâncias. As decisões primeiras — posição do elevador/guincho de carga e da central de armação — condicionam todo o resto. (Muther, 1978; Saurin & Formoso)
Os fundamentos
5 princípios do layout
Zoneamento — cada coisa no seu lugar (sujo longe do limpo).
Dumper — caçamba motorizada, terreno irregular (0,5 a 2,5 t).
Mecanizar reduz homem-hora e quebra.
Regra de bolsoUse o menor equipamento que resolve a distância — mas pare de carregar nas costas o que um pallet resolve.
O coração do canteiro vertical
Transporte vertical
Equipamento
Move
Capacidade
Quando usar
Grua-torre
Carga pesada
~1 a 2,5 t na ponta
Edifício alto, estrutura
Elevador cremalheira
Pessoas + material
~1 a 3 t / 10 a 25 pess.
Acabamento (pico de gente)
Guincho de coluna
Material leve
~200 a 500 kg
Obra pequena (não leva pessoas)
Bomba de concreto
Concreto
Lança ~24 a 36 m
Concretagem (lança / estacionária)
Quando a lei obriga
Gatilhos da NR-18 (item 18.14)
A partir de
O que vira obrigatório
Altura ≥ 10 m
Transporte vertical de material motorizado — acabou subir no braço
8+ pavimentos com 30+ trabalhadores
Elevador de passageiro (cremalheira) a partir da 7ª laje
12+ pavimentos
Elevador de passageiro sempre obrigatório (independe do efetivo)
Mito de obraNão existe regra “1 grua atende X m²” nem ciclos/hora de bolso. Grua e elevador se dimensionam por estudo de cargas e de ciclos (plano de cargas) — nunca por índice pronto.
3 dimensões
A grua-torre
Lança giratória: sobe, desce, gira 360 e corre na lança.
Move fôrma, armadura, paletes, balde de concreto.
Posição quase irreversível — é a decisão crítica.
Não pode invadir vizinho sem acordo; para com vento.
Momento de cargaA capacidade cai com a distância: carga pesada perto da torre, leve na ponta.
Por que pesado perto, leve na ponta
A conta da grua: momento de carga
4,8toneladas admissíveis
momento de carga ≈ 120 t·m (constante)
Momento = carga × raio. O mesmo momento dá muito peso perto da torre e pouco peso na ponta. Lança 30–80 m, ponta 1–5 t; a grua puxa 26–33 kVA (entra na demanda elétrica).
O ônibus vertical
Elevador cremalheira
Cabine sobe por torre dentada — só vertical, prumada fixa.
Transporta pessoas + material paletizado, rápido e seguro.
O forte dele é o acabamento (pico de gente subindo).
Material desembarca e ainda precisa de transporte horizontal.
ComplementarGrua e elevador não se substituem — dominam fases diferentes.
Dedicada ao concreto
Bomba de concreto
Bomba-lança (autobomba)
Lança articulada distribui no ponto
Alcance ~24 a 36 m
Rápida e flexível
Altura/distância moderada
Bomba estacionária
Fixa no térreo + tubulação rígida
Alcança grandes alturas
Sobe pela obra por tubo
Edifício alto / arranha-céu
Comparador interativo
Grua, elevador ou os dois?
Cola da decisao
Regras de bolso: grua x elevador
Edifício alto + concreto — grua na estrutura, elevador no acabamento.
Prédio baixo sem peça pesada — elevador + guincho + bomba-lança.
Sobrado — guincho de coluna + girica; grua é exagero.
Sem espaço pra base/raio — força solução sem grua.
NuncaElevador não substitui grua na estrutura; grua não substitui elevador no acabamento.
§
Obrigatorio por lei
Áreas de vivência e NR-18
Vivência digna não é capricho: é lei e retém mão de obra.
Vestiário — armários individuais; área pela fórmula NR-24: 1,5 − (nº/1000) m²/trab.
Local de refeição — não se come na frente; ~0,8–1,0 m²/usuário (referência de projeto, NBR cancelada).
Alojamento — só se houver trabalhador alojado.
DimensionarSempre pelo PICO de efetivo — errar gera fila, insalubridade e multa.
Números oficiais
As proporções da NR-18
Item
Proporção
Distância
Vaso sanitário
1 : 20 trabalhadores
Sanitário a até 150 m do posto
Lavatório
1 : 20
—
Mictório
1 : 20
—
Chuveiro
1 : 10
—
Bebedouro
1 : 25
Até 100 m horizontal / 15 m vertical
Calculadora ao vivo · NR-18
Dimensione a vivência pro seu efetivo
Proporções NR-18 (18.5); vestiário pela fórmula NR-24; refeitório em referência de projeto. Dimensione sempre pelo PICO.
NR-18 item 18.13
Proteção contra quedas
Guarda-corpo — travessão a 1,20 m, intermediário a 0,70 m.
Rodapé — 0,20 m na base, segura material que cai.
Plataforma principal — em prédio com mais de 4 pavimentos.
Plataformas secundárias — a cada 3 lajes.
Mudou em 2020O antigo PCMAT virou PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) na NR-18.
A rede de utilidades
Instalações provisórias
Energia — grua e elevador puxam o pico de demanda (dezenas de kW).
Água — com reservação pra garantir a cura do concreto.
Esgoto — vivência gera sanitário; não lançar irregular.
Drenagem — valetas e bombas; sem ela vira lamaçal.
A esquecidaObra que não planeja drenagem trabalha no barro no 1º temporal — e aí tudo para.
§
Sistema Toyota
Canteiro enxuto (Lean)
Separar o que o cliente paga do que ele não paga.
“
O cliente paga pela parede pronta, não pelo pedreiro andando, esperando ou refazendo.
— a ideia central do Lean
De onde veio
Nasceu na Toyota, no Japão arrasado
Anos 1950 — Japão pós-guerra, sem capital e sem espaço pra estoque. Copiar a produção em massa do Ford era impossível.
Taiichi Ohno, engenheiro da Toyota, inverteu a lógica: em vez de produzir muito e estocar, produzir só o que o cliente puxa, na hora que puxa.
Virou o Sistema Toyota de Produção — a raiz de tudo que a gente chama hoje de Lean (enxuto).
A virada de chaveO inimigo deixou de ser o custo de cada peça e passou a ser o desperdício escondido no processo: estoque, espera, retrabalho.
Os 2 pilares
Just-in-Time + Jidoka
Just-in-Time — cada etapa recebe o que precisa, na quantidade certa, na hora certa. Nada de estoque "por garantia".
Jidoka (autonomação) — parar a linha na hora que aparece o defeito, em vez de empurrar o erro pra frente.
O Kanban (cartão) é o sinal que puxa a reposição: só repõe quando consome — é o avô do nosso ponto de pedido.
Traduzindo pra obraMaterial puxado por pavimento + parar e resolver o erro na hora, em vez de rebocar por cima do torto.
TIMWOODS · parte 1
As 7+1 perdas no canteiro
Transporte — mover material à toa (estoque longe da prumada).
Inventário — estoque parado em excesso (capital + quebra).
Movimentação — gente andando atrás de ferramenta.
Espera — equipe parada esperando concreto ou elevador.
Alvo do LeanEsses são os ~60% do tempo que não agrega valor.
TIMWOODS · parte 2
As 7+1 perdas no canteiro (cont.)
Superprodução — argamassa que vira antes de usar.
Processamento excessivo — reboco mais grosso que o necessário.
Defeitos / retrabalho — a perda mais cara, paga 2x.
Intelecto — ignorar quem está na ponta e vê o desperdício.
RetrabalhoParede fora de prumo paga material e mão de obra de novo — e ainda atrasa.
Pergunta rápida
Qual é a perda mais cara?
Dos anos 90
Do Toyota ao Lean Thinking
Em 1990, Womack e Jones estudaram a Toyota e batizaram o método de Lean no livro "A Máquina que Mudou o Mundo".
Resumiram em 5 princípios: definir o valor pela ótica do cliente → mapear o fluxo de valor → fazer fluir sem parar → deixar o cliente puxar → buscar a perfeição.
O fio condutor é o mesmo de sempre: mais valor, menos desperdício — e vale pra qualquer processo, não só fábrica de carro.
A pergunta-chaveEm cada etapa: isso agrega valor pro cliente, ou é só custo que ele não enxerga?
O Lean chega na obra
Lean Construction
Em 1992, Lauri Koskela trouxe o Lean pra construção e apontou o erro do nosso jeito antigo de enxergar a obra.
A obra não é só Transformação (as atividades que a gente mede no orçamento). Ela é também Fluxo (espera, transporte, estoque, conferência) e geração de Valor. É a teoria TFV.
O orçamento clássico só enxerga a Transformação. O desperdício mora no Fluxo — e é lá que se escondem os ~60% que não agregam.
Por isso o Last Planner existeÉ a ferramenta Lean que ataca o Fluxo: reduz a variabilidade do plano e só libera tarefa sem restrição.
O coração do Lean
Empurrar × Puxar
Empurrar (push)
Puxar (pull)
Produz / compra pela previsão
Produz / compra pela demanda real
Estoca "por garantia"
Estoque mínimo, no just-in-time
Esconde o problema dentro do estoque
Expõe o problema na hora
Capital parado + risco de quebra
Fluxo puxado pela necessidade
Na obraO look-ahead é o sinal que puxa a compra: o material entra porque a frente vai precisar dele — não porque "comprei pra garantir".
Na prática
Ferramentas Lean no canteiro
5S — um lugar pra cada coisa; é o piso de tudo, não faxina.
Gestão visual / Last Planner — programação à vista na frente.
Kanban de materiais — reposição puxada quando atinge o mínimo.
Combate falta (espera) e excesso (estoque) de uma vez.
IndicadorPPC (Last Planner): % do planejado que foi concluído — meta acima de 80%.
§
Goldratt · "A Meta"
Teoria das Restrições
A obra anda no ritmo do seu gargalo — é nele que você foca.
O elo mais fraco
Todo sistema tem um gargalo
Sempre existe uma restrição que limita o resultado do todo. Os outros recursos sobram capacidade.
Reforçar quem não é gargalo não acelera nada: a obra anda no ritmo do elo mais fraco.
Se o Lean ataca o desperdício em todo lugar, a TOC concentra a energia onde dói: no gargalo.
A frase de GoldrattUma hora perdida no gargalo é uma hora perdida na obra inteira. Uma hora ganha fora do gargalo é miragem.
O método em 5 passos
Como domar o gargalo
1. Identificar — onde a obra trava? A fila de espera se forma antes de quem?
2. Explorar — tirar o máximo do gargalo: ele não pode parar, esperar nem refazer.
3. Subordinar — todo o resto trabalha no ritmo do gargalo; não adianta produzir o que só vira estoque.
4. Elevar — só então aumentar a capacidade do gargalo (mais turno, mais equipamento).
5. Repetir — resolvido um, o gargalo se muda de lugar. Volta ao passo 1, sem deixar a inércia mandar.
AtençãoQuase sempre o passo barato (explorar e subordinar) resolve antes de gastar dinheiro no passo 4.
Na obra de verdade
Quem é o gargalo da sua obra?
Estrutura — quase sempre a grua (ou o elevador de carga): todo mundo depende dela pra subir material.
Fundação — o ritmo do concreto (usina + bomba) ou a escavação.
Acabamento — o elevador de passageiro e a frente de revestimento.
Às vezes o gargalo nem é físico: é a aprovação de projeto ou a liberação de material que trava a frente.
O gancho com o LeanProteja o gargalo do desperdício: ele não pode esperar material (espera) nem refazer serviço (retrabalho). É nele que o Lean rende mais.
Como operar pela restrição
Tambor, pulmão e corda
Tambor — o gargalo dá o ritmo que a obra inteira segue.
Pulmão — uma folga de tempo e estoque na frente do gargalo, pra ele nunca parar por falta.
Corda — libera material no ritmo que o gargalo consome. Isso é puxar (pull), não empurrar.
Corrente Crítica — junta as folgas das tarefas num pulmão de projeto, em vez de inchar cada atividade.
Conecta tudoA "corda" é o seu look-ahead puxando as compras; o "pulmão" é a margem de segurança do cronograma de aquisições.
Pergunta rápida
A grua é o gargalo. Onde você não deve investir?
Exercício em grupo
Projete o layout de um canteiro
Zoneie o terreno-tipo: produção, centrais, estoque, vivência, portaria.
Posicione a grua de modo a cobrir toda a planta sem invadir o vizinho.
Posicione a vivência dimensionada pelo pico, longe de área suja.
Defina os acessos separando fluxo de pessoas do de carga.
Ache o gargalo de cada fase: implantação, estrutura e acabamento.
Gabarito comentado
Layout do canteiro: como resolver
1. Decisões primeiras — fixe a grua/elevador de carga (cobre a planta, não invade o vizinho) e a central de armação, coladas à prumada.
2. Resolva a matriz — os X (refeitório longe da poeira; vivência longe da armação; resíduo longe da comida) e os A (central → elevador de carga).
3. Vivência — pelo pico de efetivo, perto do acesso de pessoas e longe da área suja.
4. Acessos — pessoas de um lado, carga do outro; os fluxos não se cruzam.
5. Gargalo por fase — implantação: acesso e terra; estrutura: grua; acabamento: elevador de passageiro.
Não há layout únicoHá vários certos. O errado é o que cruza pessoas com carga, enterra estoque longe da prumada ou ignora a evolução das fases.
“
A restrição de material no look-ahead é exatamente o gatilho do cronograma de compras.
— por isso gestão do planejamento e suprimentos andam juntos. Agora, aos suprimentos.
2
Sábado 27/06 · 6 horas
Gerenciamento de Suprimentos
Objetivo: garantir que o material certo chegue na hora certa — sem ruptura, sem capital parado, sem obra parada esperando.
Hoje · sábado — Suprimentos
O roteiro de hoje
Por que suprimentos quebra obra
Do orçamento ao plano de compras + curva ABC
Lead times — o tempo que você não controla
Cronograma de suprimentos (quando comprar cada coisa)
Look-ahead × compras — antecipar a falta
Gestão de estoque no canteiro
Fornecedores, cotação e contratos
Indicadores + exercício
Pergunta pra começar
De cada R$ 100 que entram na obra, quanto vira material?
O peso dos suprimentos
Material é metade da obra
50–60%
do custo total da obra é material
30–35%
dos atrasos no curto prazo: falta de material
50%
PPC médio no Brasil sem gestão (metade do plano não acontece)
A realA causa nº 1 de atraso semanal é material que não chegou — quase sempre item de lead time conhecido, que dava pra antecipar com uma planilha simples.
O que é a cadeia de suprimentos
Da necessidade à entrega no canteiro
Planejar a compra — o que, quanto e quando cada material é preciso.
Comprar — cotar, negociar, fechar pedido com o lead time em mente.
Receber e estocar — conferir, guardar, proteger contra perda.
Abastecer a frente — material na mão da equipe na hora certa.
Onde tudo começaA mesma EAP do orçamento que virou cronograma agora vira plano de compras. Terceira face da mesma moeda.
Por que o plano não se cumpre
As causas de não-cumprimento
O que faz a programação semanal falhar (obras sem gestão sistemática)
Causa
Peso
Quem resolve
Falta de material
30–35%
Compras / antecipação
Falta de mão de obra
15–20%
RH / mestre
Pré-requisito não concluído
15–20%
Campo
Retrabalho
10–15%
Qualidade
Clima / projeto / mudança
10–20%
Vários
Boa notíciaA maior fatia (material) é a mais previsível e evitável — é o que vamos atacar hoje.
Do orçamento ao plano de compras
Você não compra tudo igual
Uma obra tem centenas de itens — do parafuso ao elevador.
Gastar a mesma energia de gestão em todos é desperdício.
O segredo é priorizar: foco onde está o dinheiro e o risco.
A ferramentaA Curva ABC separa o que merece atenção de comprador sênior do que é compra de rotina.
Curva ABC de materiais
Poucos itens, muito dinheiro
~80% do valor
A
~20% dos itens aço, concreto, elevador, esquadrias
~15%
B
~30% dos itens revestimentos, louças
~5%
C
~50% dos itens parafusos, EPI, consumo
Classe A: controle rigoroso, comprador sênior, contrato. Classe C: estoque simples, compra automática.
§
Seção B3
Lead time: o tempo que você não controla
O fornecedor tem o ritmo dele. Seu trabalho é antecipar.
O conceito
Lead time = pedido → entrega
É o tempo entre fechar o pedido e o material chegar no canteiro.
Não depende de você — depende do fornecedor e da fila dele.
Varia de 1 dia (concreto) a 4 meses (elevador) — tratar tudo igual é receita de atraso.
Lead times típicos — residencial vertical
Quem comprar cedo, quem deixar pro look-ahead
Lead LONGO — comprar nos 1ºs meses
Elevador: 90–120 dias (+ montagem 60–90)
Esquadria de alumínio: 45–60 dias
Louças/metais importados: 60–90 dias
Granito, vidros, portas sob medida: 30–45 dias
Gerador, guarda-corpo inox: 30–90 dias
Lead CURTO — comprar no look-ahead
Concreto usinado: 1–3 dias
Aço CA-50: 7–15 dias
Blocos, cerâmica: 3–15 dias
Tintas, argamassa: 3–7 dias
Material elétrico, tubos PVC: 3–10 dias
O contra-intuitivoO elevador instala no fim da obra, mas o contrato fecha quando a obra ainda está na fundação. Lead longo = compra cedo.
A conta que evita a ruptura
Data do pedido = Necessário na obra − Lead time − Margem
Exemplo: esquadrias necessárias na semana 24lead time 9 semanasmargem 2 semanas→ pedir na semana 13
Simulador — vai chegar a tempo?
Esquadrias: quando pedir?
lead 9 sem
semana 0semana 15semana 30
—
Antecipar a falta
Look-ahead: olhar 6 a 8 semanas à frente
Toda semana, pergunte: as atividades de daqui a 6–8 semanas podem começar? O que pode travar?
Material não pedido vira restrição — e entra na lista pra resolver agora.
Só entra na programação da semana o serviço sem restrição — material na mão.
Os dois andam juntosO cronograma de suprimentos diz quando comprar (estático); o look-ahead cobra toda semana (dinâmico). Juntos, o material nunca falta de surpresa.
O elo com o Last Planner
A reunião semanal puxa as compras
Toda restrição de material vira tarefa de compra com responsável e data — não fica no “depois eu vejo”.
O comprador participa do look-ahead: vê a frente chegando antes de a obra cobrar.
PPC que cai por falta de material vira pauta fixa — ataca a causa, não o sintoma.
O cronograma de compras (estático) e o look-ahead (semanal) viram um só processo.
Fecha o ciclo da sextaFoi o que vimos no início: o médio prazo remove a restrição, o curto prazo só programa o que está livre. Material é a restrição nº 1 — e agora ela tem dono.
§
Seções B6 a B8
Estoque, fornecedores e controle
O material chegou. Agora: guardar bem, comprar bem e medir.
O dilema do estoque
Estoque demais ou de menos?
Estoque DEMAIS
Capital parado (dinheiro no almoxarifado)
Ocupa espaço no canteiro
Perda: quebra, roubo, vencimento, chuva
Estoque DE MENOS
Ruptura: a obra para esperando material
Compra emergencial (mais cara)
Equipe ociosa = custo correndo
O equilíbrioItens de alto consumo pedem estoque mínimo de segurança. Itens de lead curto e baixo valor podem ir no just-in-time.
Estoque mínimo / ponto de pedido
Quando disparar a próxima compra
Ponto de pedido = Consumo no lead time + Estoque de segurança
Exemplo — blocos cerâmicosConsumo 5.000/semana, lead 1 semana, segurança 1 semana → quando o estoque chega a 10.000 blocos, faz o novo pedido. Nunca deixa zerar na quinta com entrega só na terça.
Fornecedores e cotação
Comprar bem é processo, não sorte
Qualificar — fornecedor confiável: prazo, qualidade, saúde financeira (não some no meio).
Cotar — mínimo 3 propostas comparáveis (mesma especificação, mesma condição).
Negociar — preço, prazo de pagamento e entregas parceladas (por andar, por lote).
Registrar — pedido com especificação completa (cor, medida, modelo) pra não chegar errado.
Contratos e recebimento
Fechar e conferir
Itens classe A (aço, elevador, esquadrias) → contrato com prazo, multa por atraso e cronograma de entrega.
Entregas parceladas evitam estoque gigante e casam com o ritmo da obra.
Recebimento: conferir quantidade, qualidade e especificação antes de assinar a nota.
Erro caroReceber sem conferir = pagar por material errado, quebrado ou a menos — e descobrir só quando a equipe vai usar.
Como se contrata fornecimento e serviço
Modalidades de contrato
Modalidade
Como funciona
Quando usar
Preço global (empreitada)
valor fechado pelo escopo todo
Escopo definido; risco vai pro fornecedor
Preço unitário
paga por quantidade medida (R$/m², R$/kg)
Quantidade incerta; mede o executado
Administração (custo + taxa)
reembolsa custo + % de gestão
Escopo aberto; exige confiança e controle
Fornecimento + montagem
material e instalação no mesmo contrato
Elevador, esquadria, fachada
Cláusulas que salvamPrazo com multa por atraso, reajuste, entregas parceladas e retenção liberada no recebimento conforme — não na assinatura.
Indicadores de suprimentos
O que medir
Indicador
O que diz
Meta
Pedidos entregues no prazo
confiabilidade do fornecimento
> 90%
Índice de ruptura
quantas vezes faltou material
≈ 0
PPC por falta de material
atrasos semanais por compra
cair a cada mês
Giro de estoque
capital parado no canteiro
alto (pouco estoque)
Economia em cotação
ganho das 3 propostas
acompanhar
O sistema que costura tudo
ERP de obra: do orçamento ao financeiro
Orçamento (a EAP) entra como base — o que foi previsto comprar.
Compras puxam do orçamento: cotação e ordem de compra amarradas ao item orçado.
Estoque dá entrada pela nota e baixa pelo consumo da frente.
Medição de empreiteiro e financeiro (contas a pagar) fecham o ciclo.
Por que importaNo Sienge (ou similar) o comprado conversa com o orçado: dá pra ver desvio de custo em tempo real e travar pedido fora do previsto. Suprimentos vira controle, não papelada.
Decisão de obra — chute
A obra está na fundação (mês 2). Quando fechar o elevador?
O ciclo da compra
Aquisição é processo, não um zap pro fornecedor
Requisição — a frente pede: o quê, quanto, quando precisa. Puxado pelo look-ahead, não pelo "acabou".
Cotação — 3 fornecedores no mínimo, com a mesma especificação pra todos — senão compara banana com maçã.
Mapa comparativo — preço + prazo + pagamento + frete na mesma tabela. A decisão fica rastreável.
Pedido (ordem de compra) — trava preço, prazo e quantidade. É o documento, não o "combinado no telefone".
Acompanhar → receber → pagar — cobrar a entrega, conferir e fechar o ciclo.
A viradaQuem compra por requisição + cotação + pedido tem preço travado e rastreável. Quem compra no susto paga o spot e ainda atrasa.
A conta que ninguém faz
Cronograma de aquisições: de trás pra frente
Parta da data de necessidade na obra — vem do cronograma físico, não do chute.
Recue o lead time do fornecedor (fabricação + entrega).
Recue o tempo de cotação e aprovação (cotar, mapear, aprovar: 1 a 3 semanas).
Recue uma margem de segurança (atraso de fornecedor, ajuste de projeto).
O que sobra é a data limite pra disparar a compra. Passou disso, a obra para esperando material.
ExemploElevador na semana 70 · lead 16 · cotação 2 · margem 2 = comprar até a semana 50. São 20 semanas de antecedência — não "quando lembrar". (É o mesmo número do gabarito daqui a pouco.)
Na prática · leve com você
Um cronograma de aquisições de verdade
Planilha pronta, item a item, com a cadeia toda: solicitação → autorização → cotação → aprovação → contratação → entrega.
Ela soma o Lead Time Total e calcula sozinha a Data Limite do Pedido — é o "de trás pra frente" que acabamos de ver, automatizado.
Baixe, troque pelos itens e datas da sua obra e cruze com o look-ahead.
Como usarÉ um modelo, não a verdade da sua obra. Ajuste os lead times com os seus fornecedores e as datas com o seu cronograma físico.
Simulador — mexe no slider
Elevador: quando pedir?
lead 16 sem
semana 0semana 40semana 80
—
A estratégia em um quadro
Curva ABC × lead time
Lead longo
Lead curto
Classe A (muito $)
Comprar cedo e travar — puxa o cronograma
Look-ahead — programa 6-8 sem antes
Classe C (pouco $)
Estoque mínimo de segurança
Just-in-time / kanban — repõe no consumo
Onde mora o riscoO canto A + lead longo (elevador, esquadria, fachada) é o que para obra. É ele que dita o início do cronograma de aquisições.
Comprar bem é relação
Gestão de fornecedores
Qualificar — CNPJ ativo, capacidade de entrega, referências de outras obras. Antes de precisar.
Homologar — um cadastro de quem está apto a fornecer cada família (aço, concreto, esquadria).
Avaliar sempre — nota por entrega no prazo, qualidade e preço. O histórico decide a próxima compra.
Risco de concentração — não depender de um fornecedor pra item classe A. Ter um plano B homologado.
Parceria × spotItem recorrente (aço, concreto) pede parceria de prazo (preço e prioridade). Item pontual pode ir no spot, na melhor cotação da hora.
As alavancas
Negociar é preparo, não simpatia
Volume — consolidar pedidos (fechar o aço da obra toda) ganha mais que comprar picado.
Prazo — quem programa cedo negocia de igual; quem compra no desespero aceita o preço que vier.
Pagamento — à vista ou a prazo é moeda de troca: use o que sobra no fluxo de caixa.
Relação — fornecedor que confia na recorrência segura preço e prioriza a sua entrega.
CuidadoO menor preço com prazo que não cabe é o mais caro da obra: atrasa a frente e custa multa de cronograma.
Fechar o ciclo
Receber é conferir, não só assinar
Quantitativo — o que chegou bate com o pedido e a nota? Contou, pesou, mediu?
Qualitativo — é a especificação certa? Tem dano, validade, certificado (aço, concreto)?
Divergência — não conformou, não aceita: registra e devolve antes de descarregar.
Rastreabilidade — NF, certificado e entrada no estoque amarram o que entrou ao que foi orçado.
Por que importaMaterial errado aceito no portão vira retrabalho lá na frente — a perda mais cara, agora com a sua assinatura no recebimento.
§
Suprimentos · nível avançado
A visão da indústria
A fábrica resolveu isso há décadas. Vamos pegar o método e traduzir pra obra.
A escadinha
De comprador a gestor da cadeia
Comprar — o nível transação: achar preço e fechar pedido. Reativo, item a item.
Suprir — o nível tático: lead time, estoque, cronograma de aquisições, fornecedor. É onde a obra já joga.
Gerir a cadeia (SCM) — o nível estratégico: enxergar do fornecedor do seu fornecedor até a entrega na frente, e tratar isso como vantagem.
A virada de mentalidadeComprador pensa "paguei barato?". Gestor de cadeia pensa "o material certo vai chegar na hora certa, sem ruptura e sem capital parado?".
O mapa de como comprar cada item
Matriz de Kraljic
Risco de faltar BAIXO
Risco de faltar ALTO
Pesa muito no custo
Alavancagem — muitos fornecedores, cotação dura, ganhe no volume (aço, concreto)
Estratégico — parceria de longo prazo, contrato, desenvolva o fornecedor (elevador, fachada)
Pesa pouco no custo
Não-crítico — simplifique e automatize, compre por catálogo (EPI, consumível)
Gargalo — garanta o fornecimento: 2º fornecedor + estoque de segurança (item específico de projeto)
Por que é ouroA curva ABC diz onde está o dinheiro; o Kraljic diz como comprar cada tipo. Item caro e fácil você aperta no preço; item barato que para a obra você protege o fornecimento.
O menor preço engana
Custo Total de Aquisição (TCO)
O preço da nota é só a ponta. O custo de verdade soma frete, estoque (capital parado), qualidade/retrabalho e risco de atraso.
O fornecedor mais barato que entrega errado ou atrasado é o mais caro da obra — só que a conta chega depois.
A indústria decide por TCO; a obra ainda decide pelo menor preço da cotação. Mudar isso é margem.
ExemploBloco 5% mais barato, mas fora de esquadro: a economia some no retrabalho de reboco e no atraso da alvenaria. O "caro" certo sai mais barato.
Por que o de última hora custa caro
O efeito chicote
Uma variaçãozinha de demanda na ponta amplifica conforme sobe a cadeia — igual à ponta de um chicote.
Na obra: você pede em cima da hora → o distribuidor não tem → aciona a fábrica correndo → preço sobe, prazo estoura, e todo mundo passa a estocar com medo.
O remédio é o mesmo do Lean e da TOC: previsibilidade. Cronograma de aquisições + look-ahead avisam a cadeia com antecedência e tiram o susto.
Conecta tudoPlanejar a compra não é burocracia: é o que tira a chibatada da sua cadeia — e o preço e o prazo agradecem.
A métrica-rainha da indústria
OTIF e os indicadores de suprimentos
OTIF (On Time In Full) — a entrega só conta se chegou no prazo E completa. 95% no prazo mas faltando item ainda para a frente.
Ruptura (falta) e giro de estoque — quantas vezes o estoque "roda" no ano. Giro alto = pouco capital parado.
% de compras emergenciais — quanto você comprou no susto (caro) vs planejado. É o termômetro da gestão.
O que perseguirOTIF alto e compras emergenciais baixas. Se metade das compras é "pra ontem", o problema não é o comprador — é o planejamento lá atrás.
Da indústria · quanto pedir de uma vez
Lote Econômico de Compra (EOQ)
Pra material de consumo contínuo (bloco, cimento, aço de tela): pedir muito de uma vez economiza frete mas empata capital; pedir pouco e sempre gasta pedido e frete toda hora. O EOQ acha o meio-termo. Arraste e veja.
Estoque de segurançaSome uma "gordura" pro lead time variar: quanto mais você quer não faltar (nível de serviço), maior o estoque de segurança — e o capital parado. É o seguro contra ruptura.
O que a pandemia ensinou
Gestão de risco na cadeia
Concentração — depender de um fornecedor pra item crítico é bomba-relógio. Tenha um 2º homologado (dual sourcing).
Visibilidade — saber o lead time real e o estoque do fornecedor evita a surpresa. O que você não enxerga, você não gerencia.
Contingência — pra item gargalo, um plano B escrito: fornecedor alternativo, estoque de segurança ou substituto técnico já aprovado.
Lição recente2020-21: quem dependia de um fornecedor só de aço ou PVC parou a obra. Resiliência virou parte do custo — e do projeto de suprimentos.
Exercício do dia ⏱ em grupo
Montar o cronograma de suprimentos
Peguem a EAP da obra-tipo e listem os 10 materiais de maior valor (classe A).
Para cada um: quando é necessário na obra + lead time + margem.
Calculem a data do pedido (necessário − lead − margem).
Marquem os itens de lead longo que já estão atrasados se a obra começou hoje.
Montem o look-ahead de 6 semanas e cruzem com as compras.
Gabarito comentado
Cronograma de suprimentos: como resolver
Material (classe A)
Necessário
Lead
Margem
Pedir até
Elevador
semana 70
16 sem
4
semana 50
Esquadria de alumínio
semana 40
9
2
semana 29
Louças / metais
semana 60
10
2
semana 48
Aço CA-50 (1º lote)
semana 6
2
1
semana 3
A leituraSome lead + margem e ande pra trás a partir da data de uso. Os de lead longo (elevador, esquadria) já estão no caminho crítico das compras com a obra ainda na estrutura — são os que “atrasam parados”.
Exercício integrador fecha a disciplina
Um caso, os três eixos juntos
Obra: 12 pavimentos, 22.000 m², 40 meses, pico de efetivo ~110 pessoas. Esquadria de alumínio (lead 9 semanas) necessária na semana 30.
Planejamento — confirme o efetivo de pico pela fórmula e leia o histograma: onde está o pico?
Canteiro — dimensione a vivência por esse pico e decida o transporte vertical (12 pav → o que a NR-18 obriga?).
Suprimentos — trave a data de pedido da esquadria e diga se, começando hoje, ela já está atrasada.
Amarra — mostre como a restrição da esquadria entra no look-ahead e na reunião semanal.
A síntesePlanejar diz QUANDO; o canteiro e os suprimentos fazem ACONTECER. Quem enxerga os três juntos não é pego de surpresa.
Próximo fim de semana · 03–04/07
O que vem na Aula 2
Integração e controle
Last Planner completo — médio e curto prazo, PPC, causas de não-cumprimento na sua obra
Controle físico-financeiro — curva S, avanço medido e valor agregado (EVA)
Canteiro × suprimentos × execução num só fluxo
Suprimentos avançado
Contratos e ERP na prática — medição, aditivo, Sienge
Casos reais Cartesian — o que deu certo e o que quebrou
Trabalho final da disciplina (se a coordenação pedir avaliação)
TragamUma obra de vocês (real ou recente): vamos aplicar o método nela, do canteiro ao cronograma de compras.
Fim da Aula 1
O que vocês levam pra obra
O canteiro é uma fábrica temporária: layout, fluxos e transporte definem a produtividade.
Dimensione pelo gargalo de cada fase: vivência pelo pico, vertical pela estrutura, acessos pela implantação.
Material é metade da obra — lead time + cronograma de compras + look-ahead = material na hora certa.
Canteiro enxuto: só o que agrega valor; andar, esperar e refazer é perda a eliminar.
Aula 2 (próximo fim de semana): integração, controle e aprofundamento. · Leonardo Kock · Cartesian Engenharia